Biketech Floripa

domingo, 11 de agosto de 2013


Você teria coragem de abandonar sua magrela e desaparecer no mapa, após brigar com seus familiares e até com sua namorada? Acompanhe esta e outras aventuras logo abaixo...

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Continuação....

Aos 22 anos ingressei na faculdade de história da UNIOESTE, há quarenta quilômetros de casa, curso matutino, tinha vezes que ia de carona, outras vezes ia uma vez por semana e ficava alojado na casa de amigos e outras tantas vezes, ia de bicicleta com o tronco deitado sobre o guidão carneiro da speed onde ia um livro aberto que conseguia ler nos trechos retos e planos. E o percurso era todo plano nos primeiros 25 km e até bastante reto, boa parte com bom acostamento, depois de Nova Santa Rosa é que tinha umas ondulações e alguns trechos sinuosos, além disso, tinha pouco fluxo de veículos, o que me dava certa segurança. 



Caloi 10
Foi nesta época que comecei a praticar o ciclismo veicular na estrada, pedalando sempre do lado direito da pista, na maior velocidade possível e sinalizando algumas das minhas intenções. Chegando em Marechal Cândido Rondon me espantei ao ver toda a extensão da avenida Maripá com ciclovias dos dois lados da pista, muito apropriadas, mas era comum os motoristas estacionarem ao lado do meio fio para descida dos passageiros que abriam as portas sobre a ciclovia sem olhar, de modo que bati em várias portas que se projetavam do nada sobre a ciclovia. Cursei três anos e meio de faculdade e tive que parar por problemas financeiros, pois a região praticamente não tinha oferta de trabalho e  cada vez mais eu tinha que ir mais longe para trabalhar até que chegou o ponto em que não pude mais estudar. Passei tempo desempregado, sem estudar e com bicicletas muito ruins, foi o tempo que vivi na era das trevas...

Um dia, briguei com meus irmãos e demais familiares, me separei de uma relação de quase dez anos com minha namorada, me deu na louca e resolvi desaparecer no mapa, deixando a bicicleta destrancada na rua para que alguém pudesse pegá-la e fazer bom uso dela. 


Alto da Costeira do Pirajubaé
Fiquei vagando pelo mundo de carona e com 28 anos cheguei à Florianópolis de carona, sem dinheiro, sem trabalho e sem conhecer ninguém, me aventurei pela cidade, morei em vários bairros, trabalhei com várias coisas, e por fim, fui morar na Costeira do Pirajubaé, bem no alto do morro, onde consegui uma bicicleta velha que usava para ir namorar no Campeche e às vezes para trabalhar na Lagoa... resolvi refazer vestibular para História, ingressei na UFSC e ganhei uma bike alemã que está no porão de casa até hoje de um colega de trabalho que estava de mudança para São Paulo, era um quadro rústico dos primeiros modelos de quadro praiano sem marchas e fui morar na Serrinha, onde ainda moro.

Comecei praticar capoeira e um dia quebrei o talo, fiquei engessado por um tempo, meus amigos Dego e Gabriela normalmente me pegavam em casa de carro e me levavam para rodas de capoeira, onde ficava batendo palmas ou tocando instrumentos. Certo dia, tinha um compromisso urgente na UFSC e não achei o telefone de um táxi, desci o morro de bike com a perna engessada e tudo. Quando tirei o gesso, comecei a fazer fisioterapia, mas como fui me empolgando com a bicicleta e pude abandonar rapidamente a fisioterapia e voltar a jogar capoeira em apenas um mês, sendo que o ideal seriam seis meses, mas me sentia bem e fortificado como ainda me sinto atualmente.

Fui mesclando bicicletas até que cheguei numa Caloi 100, bicicleta que doei recentemente, com ela conseguia fazer facilmente o Morro da Cruz, ir dar aulas no Pachecos ou nos Ingleses, fiz algumas viagens com ela, sendo que numa delas acompanhei minha irmã Márcia em sua blitz... mas em 2011 fui atropelado seis vezes no mesmo ano, na maioria das vezes na SC 405, todas as vezes em baixa velocidade ou parado, com pequenos ferimentos, mas isso me assustou bastante, de modo que eu precisava encontrar soluções mais eficientes para minha segurança e encontrei duas boas soluções: a primeira pedalar mais e mais reavaliando minha experiência de ciclista no trânsito, criticando todas os meus movimentos e também dos demais agentes do trânsito; a outra forma foi começar a participar, mesmo que timidamente, do cicloativismo.


Anastácia, minha primeira “aluna”
em rotas por Florianópolis
Foi também em de 2011 que comecei a ensinar amigos da capoeira a usarem a bicicleta para se deslocarem de uma roda para outra, minha primeira 'protegida' foi a Anastácia Schroeder, que levava aos domingos do Pantanal para ensaios no Campeche ou no Rio Tavares, logo apareceram mais e mais interessados nestes bondes de bicicleta para a capoeira, quando percebi era comum ter cinco ou seis pessoas pedalando comigo para diversos eventos de capoeira, principalmente pelo sul da ilha.

Quando comecei a frequentar a Bicicletada Floripa, lá me disseram que já existia esta modalidade de personal biker, que se chamava Bike Anjo e imediatamente me tornei adepto e militante do movimento que é um ótimo projeto de educação informal, ajudando pessoas inexperientes a usarem a bicicleta como o meio de transporte principal. Nesta época, recuperei uma speed Monark dez do lixo, que é atualmente minha principal bicicleta, uso-a quase todos os dias, viajo, reboco outras bicicletas e ainda faço compras grandes com ela.


Bicicletada Floripa em janeiro de 2013.
Hoje deixo de fazer várias coisas que considero importantes para participar de passeios da Massa Crítica de São José, da Bicicletada Floripa, do Pedalua dos grandes amigos Eduardo Green e Pereira, viajar com amigos em trips malucas de cicloaventura, ou ainda para fazer os mais diversos tipos de atendimentos Bike Anjo, atividades nas quais me sinto plenamente realizado e muito feliz por fazer muitos amigos, ser compreendido nos meus pedais e de quebra ainda tratar a diabetes tipo um, que me acompanha há muito tempo, mas com bons pedais e com bons amigos consigo ter uma qualidade de vida comparada à de uma pessoa saudável.


Puxando o Bonde da Cyclophonica, uma orquestra sobre bicicletas
dobráveis no alto das Paineiras do Rio de Janeiro. Em junho de 2011.

No contexto de tantas experiências ciclísticas, hoje digo que meus pedais representam muito da minha vida e que sem eles não sei se poderia continuar vivendo e isso se expressa tão perfeitamente em mim, que costumo dizer que seu eu morrer pedalando, morrerei feliz.


Sobre a ponte Colombo Machado Sales durante o Audax em abril 2013 
(fui como observador independente)

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8 comentários:

  1. Fiz uma leitura solene para o pessoal aqui de casa e as lágrimas rolaram.
    Muito bons tempos esses que nós vivemos.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Desculpem a emoção, mas sempre que puder, baixarei em Campo Grande para mais uns bons pedais.

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  2. Caro Sérgio Fregolão, muito bonita e comovente a associação entre você e a bicicleta, algo essencial em sua vida. E uma honra participar desta aventura através da Cyclophonica! Que venhamos a nos encontra e pedalar muito nesta existência!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Sabe que sempre que eu estiver em solo fluminense vou procurar saber por onde anda a paisagem sonora carioca e ingressar no bonde. Afinal não é todo dia que se tem o prazer de seguir um passeio instrumental.

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  3. Lindo depoimento, Fregolão! Fico super lisonjeado de figurar na tua emocionante história! Parabéns também ao Audálio pela ideia e manter esta coluna com gente tão envolvida com a bici. Cicloabraços e pedal pra frente!! Dudu

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