Biketech Floripa

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A Máquina do Tempo

Por Charles Silva
Charles Silva

Primeiro vieram os automóveis, os aviões e os foguetes, acelerando o tempo e encurtando o espaço. Depois vieram a informática, os celulares e a Smart TV, conectando tudo e todos entre as calotas polares. Mas a "Máquina do Tempo", com sua misteriosa cabine, suas luzes coloridas e seu ruído agudo, nada.

Sempre pensei na Máquina do Tempo como algo extremamente complexo, um emaranhado de fibra óptica interligado a turbinas nucleares, sensores capazes de monitorar, com precisão, futuro e passado. E em volta da milagrosa invenção, dezenas de engenheiros correndo pra lá e pra cá, checando tudo, improvisando gambiarras curiosas para garantir a viagem do transportado no tempo e no espaço.

Domingo passado, comendo pipoca no Parque da Cidade, flanando sob um céu dominical, encontrei um sujeito estranho, de modos irreverentes, olhos esbugalhados e muito eloquente em sua solidão. Falava sozinho, tomado por um surto psicótico qualquer, sentado debaixo de uma árvore. Embora eu tivesse disfarçado que não lhe ouvia, a ponto de virar-lhe as costas e encher a boca com as noivas do milharal, o sujeito levantou-se e caminhou em minha direção:

- Ei, você aí, gostaria de experimentar a minha invenção?
- ?!
- Ainda falta alguns ajustes, mas um homem corajoso e inteligente, não teria grandes dificuldades em viajar no tempo.
- Isso aqui vai me fazer viajar no tempo?
- Por enquanto, só pode levar a pessoa para o passado.
- E a pessoa nunca mais volta ao presente?
- Digamos que voltará diferente... Entenda, ainda é um protótipo...

Eu estava diante de algo muito simples, uma engenhoca sem motor, sensores, turbinas, fibra óptica, nada. A rigor, aquilo tinha dois materiais: ferro e borracha. Pensei em declinar do convite e sumir dali. Lutei por alguns instantes com o medo do ridículo, mas meu coração aventureiro quis pagar pra ver.

- Eu topo!

O maluco abriu um sorriso, arregalou os olhos azuis e me socou um capacete na cabeça. Deu instruções de como usar a engenhoca, mostrando os comandos de aceleração e frenagem. Quando dei por mim, estava navegando no protótipo esquisito. Acostumado a automóveis e aviões, a primeira sensação que tive foi a de que o tempo havia desacelerado. Eu podia sentir o cheiro das flores, ouvir o canto dos pássaros, reparar mais demoradamente nas paisagens que se desnudavam ao longo do caminho. Depois, fui tomado por uma alegria pueril, um menino encantado com seu brinquedo. Por fim, eu me vi com seis anos de idade, flutuando no Parque do Mundo, sonhando em ser um Super-Herói...

Viajei 10km em meia hora, numa trajetória oval, até reencontrar o inventor dessa maravilha. Fui recebido com um entusiasmo excepcional e, para minha surpresa, retribuí os vivas à altura. Éramos dois malucos falando da experiência da navegação. Quando a noite caiu, despedimo-nos com as seguintes palavras:

- Devo confessar que você proporcionou o melhor domingo da minha vida.
- E você provou ser um bom cosmonauta.
- Você já tem um nome para essa engenhoca?
- Já, sim. Em breve o mundo aprenderá a pronunciar o nome da minha Máquina do Tempo.
- Espero lhe encontrar outras vezes. Fique em paz.

Ele levantou a mão e sorriu. Depois, subiu em sua máquina e partiu. Há sonhos que são tão simples de realizar quanto esta volta de bicicleta que dei domingo no Parque da Cidade.

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5 comentários:

  1. E a gente precisa de tão pouco para ser feliz...
    Gostei da crônica e da mensagem.
    CicloAbraços.

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    1. Sim, a 'máquina do tempo' está disponível para todos, bem como optar por dar mais atenção para a felicidade do que para a tristeza :)

      Abraços!

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  2. Respostas
    1. Concordo!

      Pena q atualmente, dificilmente as pessoas param para ler textos com mais de 5 linhas :(

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