Biketech Floripa

segunda-feira, 4 de novembro de 2013


No depoimento abaixo, a biker Patrícia Barcellos demonstrou ser uma pessoa muito corajosa e guerreira, inclusive na vida ciclística! Adepta do Cicloturismo, pedalou por mais de 1.500 km, numa viagem entre Florianópolis e Rio de Janeiro, além de ter completado várias provas de Audax, a última de 600 km (neste ano, coisa que poucos bikers conseguem). Um exemplo de pessoa que curte pedalar e que vale à pena seguir! :)

Espero que curtam este depoimento Show de Bike!


Biker Patrícia Barcellos
Sou gaúcha de Porto Alegre, 42 anos, e quando adolescente ficava sonhando em morar em uma ilha, ter uma bicicleta como meio de transporte (igual aos filmes que eu assistia, das mocinhas pedalando com cesta de flores, indo ao mercado e tal), uma casa com horta e viver feliz para sempre.....

Ok. Aos 24 anos (1995), formada em hotelaria, sai de casa dizendo que ia embora para Florianópolis (a Ilha), cidade que não conhecia. Fiquei um tempo na casa de uma tia que morava há alguns anos na ilha, até conseguir trabalho em um hotel. Me mudei, casei e em 1999 nasceu minha primeira filha. Neste mesmo ano me separei e fui morar no Rio Vermelho. Zona rural dentro da ilha, longe de tudo. Comprei uma bicicleta para usar como meio de transporte pelo bairro. Minha filha, já com 01 ano e meio, e eu comecei a trabalhar em uma pousada lá mesmo. Sou apaixonada por praia, adoro viver e curtir a Ilha. Nos intervalos do trabalho ia à praia de bicicleta e em todos os dias de folga também. Meus amigos surfavam, as namoradas e esposas ficavam na praia e eu chegava de bicicleta causando espanto. 

A praia, Moçambique.


Para ir para Moçambique com um bebê, passar o dia com a turma, eu precisava estar equipada. Portanto montava a cadeirinha, um balde com brinquedos pendurado na frente na bicicleta. Guarda-sol amarrado no quadro, uma mochila com fraldas, comidinhas e água e presa à mochila, uma cadeira de praia. Para complementar o look, um chapéu de Cowboy e pronto, já era conhecida no bairro. Maioria de moradores nativos, ficavam espantados. Mas era divertido, prático e eu pedalava feliz com minha filha, pra lá e pra cá. Entre a praia e minha casa era uma distância de 5 ou 6 quilômetros. Já achava bastante...

Em 2002 nasceu minha segunda filha. Eu com dois bebês, desempregada, passando alguns momentos difíceis,  mas feliz na minha Ilha. Momento de repensar muitas coisas, e segurando uma barra por estar longe da família, decidi que deveria voltar para Porto Alegre. Mesmo sabendo que seria muito triste deixar o lugar que considero como meu chão, Florianópolis.

Como última tentativa para ficar, sai distribuindo currículos e o destino me trouxe para o norte da ilha, Cachoeira do Bom Jesus, onde sou gerente de um hotel há 10 anos. Tive a sorte de ser muito bem recebida pelos donos do hotel, que me acolheram como membro da família e por 07 anos morei em uma casa cedida por eles, em frente ao hotel. Assim, ficava perto das minhas filhas, e tranquila para trabalhar em tempo integral. Como tinha tudo por perto vendi a bicicleta, junto com outras coisas.

As meninas cresceram, foram ficando mais independentes e comecei a olhar para mim. Por cinco anos me dediquei exclusivamente ao trabalho e às filhas, somente. Uma fase linda. Porém, chegava o momento de mudar novamente o meu foco. Estabeleci prioridades, determinei horários para trabalhar (não mais 24 horas...) e organizei o tempo das meninas para que fossem entendendo que eu precisava de um tempo para mim.


Neste período, por amar tanto o mar, me inscrevi num curso de mergulho e conheci minha grande paixão, mergulho autônomo. Fiz mais cursos e hoje tenho certificação de mergulho avançado. Por alguns anos, durante a temporada de mergulho, e quando não precisava estar no hotel, saia para mergulhar. Iniciei o curso de dive master, mas não conclui. No entanto, conheci o pessoal das operadoras de mergulho daqui, e alguns instrutores, e gostava de estar em cima do barco, mesmo que não fosse mergulhar, de ir para Ilha do Arvoredo. Comecei a me equipar. Ganhei alguns equipamentos, investi em outros. Saída de mergulho custa caro. Às vezes o pessoal da base de mergulho me convidava para mergulhar. Uma das meninas, minha amiga,  foi trabalhar em uma operadora na Barra da Lagoa e sempre me chamava para mergulhar lá, na Ilha do Xavier. O transporte público aqui é uma tristeza. Para percorrer o trajeto de 25 km entre minha casa e a operadora de mergulho, eu precisava de carona, já que nunca tinha horário de ônibus àquela hora da manhã, no final de semana. E saída de mergulho é sempre 08:00.

Então, um dia fui conversar com o caseiro do condomínio e enxerguei uma bicicleta num canto, toda enferrujada. As rodas empenadas. Comprei por R$ 50,00. Troquei o que precisava trocar para fazê-la ‘funcionar’. E com ela percorria os 25 km até a operadora, carregando todo meu equipamento (menos cilindro, claro). Subia morro com todo aquele peso, feliz da vida. Indo praticar o meu mergulho, que eu adoro. Quando era lua cheia, na hora que eu saia para ir até lá, subindo o morro dava para ver a lua se pondo de um lado e o sol nascendo no outro. Comecei a encarar uns trajetos maiores com aquela bicicleta e a utilizá-la como meio de transporte. Ia para qualquer canto. Estava gostando muito.


Cicloviajando com o marido
Em 2010 conheci um namorado. Ele, carioca, triatleta, tinha vindo morar em Florianópolis depois da separação dele, em 2007. Naquele ano havia participado do Iron Man, voltou e ficou. Logo reparou na minha bicicleta (falou que tinha até medo de contrair tétano se subisse nela e não entendia como eu podia me locomover com ela, e ainda, tão longe com o equipamento de mergulho nas costas). Me auxiliou na compra de uma bicicleta nova, simples, mas de alumínio desta vez. Então, investi na troca de rodas melhores e ele me ensinou a trocar pneu, orientou sobre os itens de segurança e fui me equipando e aprendi a pedalar longas distâncias passeando, ou mesmo o acompanhando nos treinos.

Comecei a curtir mais ainda. 

Mergulho é um esporte caro e treinar de bicicleta começou a tomar mais tempo, já que nós tínhamos muito prazer em treinar e passear juntos. Diminui as saídas de mergulho e comecei a pedalar com ele.

Antes de conhecê-lo, ainda com minha bicicleta de ferro, pesada e enferrujada, cogitei a possibilidade de dar a volta na Ilha, durante o mês de férias, curtindo o que muito turista quer, que é estar aqui. Pensei em pedalar por um mês, ficando em pousadas em cada bairro, mas acabei não concretizando. Ficou para depois.

Certa noite a mãe de um colega da minha filha esteve em casa e comentou de um evento que ocorreria em março, e me convidou a participar. Comentei com o namorado e ele topou. Nos inscrevemos no Audax 200 km - 2012. Foi ai, então, que acabei realizando o desejo de dar a volta à ilha, porque o percurso da prova é esse.

Gostei tanto que resolvi fazer o 300 km, logo depois, desta vez acompanhada de um amigo.
Então, com este namorado, combinamos de ir de férias para o sul da Bahia, num mês de agosto (2011), acampar e levar as bicicletas. Planejamos a viagem para a região de Prado. Nos instalamos em Cumuruxatiba. Pleno agosto, Camping em frente ao mar. O carro ficou parado o tempo todo e nós pedalando todos os dias. Praias, falésias, fazendas, estradas. Fui ficando apaixonada pelo cicloturismo.


Férias pela Bahia
Atravessando o Canal Cahy - Bahia
Percurso feito na viagem
Fim das férias, bikes no carro, direção Florianópolis, vínhamos conversando, observando a BR 101 e fomos planejando as férias do ano seguinte. Chegamos a feliz ideia de pedalar de Florianópolis até Niterói - RJ. Observando a BR, fomos calculando e ia nascendo esse desejo.

O ano seria 2012, férias de agosto. O semestre anterior foi todo dedicado a planejar esta viagem. Todas as noites abríamos o mapa em cima da mesa, e junto com as meninas, íamos sonhando. Mudamos os planos. Nada de BR. A ideia agora seria ir pelo litoral. Mais bacana. E fomos calculando km  bolando estratégias. Economizando. Comecei a pesquisar em blogs e sites de cicloturismo. Nem imaginava a enorme comunidade de ciclistas, tanta gente viajando. E fui gostando cada vez mais. Fiz alguns contatos, recebemos dicas. Fomos convidados a passar a noite na casa de ciclistas que nem conhecíamos.

Viagem organizada, tudo planejado e foi uma das viagens mais maravilhosas que fiz. Parceria do agora marido, que entendia tudo de manutenção. Levamos 18 dias para percorrer 1560 km de Florianópolis à Niterói  Tudo com muita segurança e bem planejado. Deu tudo certo, até o tempo colaborou, nenhum dia de chuva.


Viagem de Floripa ao Rio de Janeiro
Pedalando pela Estrada da Graciosa 
Chegando ao Rio de Janeiro

De volta à Florianópolis fiz um relato que enviei para o jornal Diário Catarinense (neste link)  e uma revista de esportes (Sul Sports, neste link). 


Curtindo o Cicloturismo
Eu havia sido ‘picada’ pelo inseto do cicloturismo. E comecei a querer conhecer o pessoal que pedala aqui em Floripa.

Mas a minha bicicleta já havia sido toda reformada. Quero dizer, o que sobrou dela foi o quadro, porque eu já havia feito vários up grades. Precisava melhorar. Levei na loja e perguntei: “quê mais preciso fazer na bike para melhorar a performance?” O mecânico sugeriu trocar o quadro. Esperei passar a temporada e investi num novo quadro. Ainda não uma bike TOP, mas melhorou muito. Agora uma bike feita para mim.

Enfim, neste ano (2013) nos separamos. Perdi o parceiro dos treinos, mas não o desejo de continuar, e segui sozinha, mergulhando e pedalando. Utilizo a bicicleta como meio de transporte e gosto de treinar longa distância. Continuei a fazer isso sozinha, às vezes alguns amigos acompanhando.

Separação, momento sofrido, difícil. Pedalar me ajudou a superar este momento. Muito.

Conheci várias pessoas. Me inscrevi em passeios, até mesmo fora da cidade. Recebi muito apoio. Foi importante para mim fazer parte destes grupos. Pedalar foi uma terapia e um canal para conhecer pessoas interessantes, divertidas, saudáveis.

Acabou, que com isso, reatamos e continuamos nossos treinos e planos de mais viagens por ai.


GALERIA DE FOTOS


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10 comentários:

  1. Emocionante o teu depoimento e as fotos idem! Ah, e somos conterrâneas, que legal a tua história aqui na Ilha, mostra que és uma pessoa de garra e que mesmo diante das dificuldades soube manter a serenidade de espírito e não desistir de seus sonhos.
    Grande abraço!

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    1. Olá Patricia!
      Lembra de uma subida ao morro da Pedra Branca em 30/06/2012?!
      Veja a foto: https://plus.google.com/photos/118072117614693582318/albums/5759882264174392881/5759856814619462898?banner=pwa&authkey=CK-4xIHGj5OX3AE&pid=5759856814619462898&oid=118072117614693582318
      Pois é... até hoje era um mistério aquela garota que apareceu do nada e acompanhou o nosso pedal! Dia espetacular, galera animada, mas sempre ficava a dúvida... quem era aquela garota?!
      Tá aí a resposta! ;-)
      Parabéns pela bela história de vida e até a próxima! ;-)

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    2. Quem diria, a coluna Gente que Pedala ajudando a resolver um mistério! :)

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    3. Ah, que bacana Renato! Lógico que lembro. Foi um dia maravilhoso na companhia de vocês. Quem convidou foi o Rafael Pina Pereira, através do perfil do pessoal da Iron Mind. Curti a publicação e resolvi ir. Sai de Jurerê cedinho, pedalando até o trapiche da Bewira Mar e encontrei um pessoal ali. Depois seguimos e encontramos mais uma galera. Lembro que subi empurrando a bike (trecho muito técnico)mas valeu a pena, pelo visual e a companhia. Voltei pra casa pedalando, leve.
      Ah, e obrigada pelo 'garota' kkkkkk Gostei.

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  2. Que lindo o seu depoimento! E muito inspirador! Que a bicicleta continue te ajudando a superar as dificuldades :)

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  3. Patrícia, que legal teu depoimento. Parabéns !! Nem sabia que estavas pedalando, já que te conheço de tanto tempo atrás !! hehe. Um abraço e qualquer dia venha pedalar com nosso grupo Duas Rodas. Luciano Schroeder (9177-5001 - http://duasrodasmtb.com.br/)

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  4. Bacanérrima sua aventura! Triste a perda do parceiro, mas que maravilha que o esporte preenche lacunas e pode trazer novos amigos, amores... Desculpe a invasão, o que pode contribuir para um casal com tantas afinidades separar-se?

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  5. Olá Patricia, que aventura legal! Com execeção da separação... Que bom que o esporte preenche lacunas e nos traz novos amigos, amores... Perdoe a invão, mas o que pode contribuir para um casal com tantas afinidades chegar á separação? Tenho muitas afinidades com meu companheiro e temo um dia ficar sem tudo isso.

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