Biketech Floripa

domingo, 24 de fevereiro de 2013


O depoimento desta semana é da biker Karla Sim, uma das que mais atua em prol da mobilidade urbana através do uso da bike como um excelente meio de transporte.

Pedala desde criança e, como várias pessoas, também teve sua fase longe da bike.

Atualmente, atua bastante através da ONG Viaciclo e não pedala tanto, mas através deste cicloativístico, contribui para que muitas outras pessoas venham a pedalar também!

Espero que gostem de mais esta história Show de Bike!

CicloAbraços, Biker


A bicicleta e eu

Minha primeira lembrança envolvendo uma bicicleta é meio assustadora. Eu estava na 1ª série, como de costume ia para a Escola na garupa, minha mãe pedalando. Da caçamba de uma camionete que nos ultrapassava caiu um tonel, desses grandes, de óleo, que passou a nos “perseguir”, rolando pela estrada! A mãe ficou apavorada, acelerou a pedalada, e foram longos segundos de desespero até que o tonel bateu num barranco e parou. Chegamos à Escola ambas lívidas do susto, e minha mãe praticamente sem fôlego... Bom, como seria de se esperar, a história virou motivo de muita risada e fonte de piadas para a família por alguns anos, até que caiu no esquecimento – menos para nós duas, claro!


Além dos infalíveis triciclos, minha infância foi povoada por bicicletas de todos os tamanhos – que eram sempre muito bem cuidadas porque tinham que ser repassadas aos irmãos mais novos. Não raro ganhavam reforma e pintura, e eram “representeadas” sem cerimônia! Como irmã mais velha de uma barulhenta gangue de 5, eu tinha o privilégio de usar a maior, e a preferência quando uma rara nova chegava. Olha eu aí monopolizando a nossa primeira monareta...


Bicicleta era o veículo para tudo: Escola, padaria, casa dos amigos, pequenos serviços para o pai e a mãe, visita à casa da vó... Mas, a partir dos 14 anos, comecei a pilotar uma CG 125 (nesse tempo as regras eram mais frouxas...), e, sempre que podia, trocava a bicicleta pela moto. Mas a magrela da família esteve sempre lá, utilizada por todos, e foi a minha grande aliada numa empreitada importante: aos 20 anos, precisava emagrecer uns quilinhos para caber num vestido de noiva emprestado – e pedalar por Tubarão resolvendo os detalhes de Igreja, decoração e afins deu conta do recado!

Minha “idade das trevas” em relação à bicicleta começou logo depois disso, e durou vários anos. Começo de carreira, 3 empregos, pós-graduação, filhos, abrir uma Escola... tudo era muito corrido, pedalar era raro, só de vez em quando, em lugares seguros, com as crianças em suas bicicletinhas com rodinhas de segurança.

Até que conheci meu grande amigo e meio “mentor” nos assuntos ciclísticos, André Soares – e veio o “renascimento”. Ele me apresentou o movimento cicloativista, me falou sobre o que representa para as cidades o investimento nos diferentes modais de deslocamentos, me mostrou inúmeros exemplos de lugares mundo afora em que a vida é muito melhor, as cidades mais limpas e alegres e as pessoas mais saudáveis e felizes, muito por causa da escolha do uso da bicicleta como meio de locomoção e transporte. Eu abracei a causa quase que instantaneamente! A mim pareceu lógico, racional, claríssimo: as cidades precisam voltar-se para o uso da bicicleta e do transporte coletivo, inverter a lógica dos carros, tornar-se lugares mais humanos, organizados e estruturados de fato para as pessoas! Tornei-me uma simpatizante, quase uma militante da causa. Li sobre o assunto, conheci muitas outras pessoas ligadas ao movimento, aprendi muita coisa. 


O tema foi introduzido no currículo da Escola da Fazenda, e através de atividades multidisciplinares, é abordado em todas as faixas etárias. Nossa equipe pedagógica, nossos estudantes e familiares são hoje entusiastas da bicicleta. Há 9 anos, organizamos no Sul da Ilha o Dia Mundial sem Carro, que a cada ano ganha adesões de outras Escolas e instituições!

O André também me apresentou a ViaCiclo, que foi nossa parceira em todas as mobilizações. Tornei-me associada e, ao participar de uma assembleia no final de 2010, acabei compondo a nova diretoria. Estou vice-presidente da Associação! Envolvi-me ainda mais com as lutas, participei e participo de inúmeras reuniões em diferentes instâncias governamentais e em fóruns de discussão da sociedade civil e, com a inestimável colaboração de vários outros associados, tenho procurado organizar as demandas dos ciclousuários que chegam até nós para que sejam encaminhadas da maneira mais produtiva. Não é fácil manter uma ONG do porte da ViaCiclo, com todas as suas implicações jurídicas, técnicas e operacionais. O trabalho é árduo, os voluntários são poucos (e as demandas muitas!), mas estou otimista. 

Sinto que vivemos um bom momento na história do cicloativismo, com a mídia e profissionais da saúde e do urbanismo compactuando com a nossa causa. Isto, e o fato de estar cada vez mais convencida de que o nosso movimento é mais que justo – é necessário! –, somado ao entusiasmo dos colegas cicloativistas que se agregam ao trabalho, fornecem o combustível e a motivação para seguir com a luta.

Eu ainda pedalo muito pouco. Numa mensagem recente à lista de associados da ViaCiclo, até me intitulei “ciclista de padaria”. Faço pequenos trechos pelo bairro, unindo o útil ao agradável, quando tenho coisas a fazer por perto; e gosto muito de pedalar na praia – é um exercício interessante acompanhar a linha de descida das ondas, pois é preciso seguir por uma faixa molhada, mas não muito. Frequentemente, ultrapasso pelo acostamento a interminável fila de automóveis na SC 405 (que agora não tem mais hora para se formar), e espero que a plaquinha “um carro a menos” fixada no paralama faça alguns dos motoristas refletir sobre esta possibilidade, sobre o necessário esforço individual e coletivo para tornar as cidades mais acolhedoras e sustentáveis.



2 comentários:

  1. Grande depoimento! Não conhecia esta ONG...
    O mundo precisa de mais pessoas como você!
    CicloAbraços!

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  2. Amável amiga, responsável com as causas que abraça, cidadã autêntica, profissional exemplar - assim é a Karla. Que ela possa estar sempre se encontrando com outras pessoas com as mesmas qualidades, porque, assim ela também compreende, toda mudança social necessita de cooperação. Estamos nos devendo uma pedalada juntos, né Karla? Enquanto não chega essa hora, receba a reafirmação de que nossas bicis seguem em paralelo para aquele lugar bonito que existe pelo menos no nosso desejo.

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