Biketech Floripa

terça-feira, 23 de abril de 2013


Parte final do ótimo depoimento do biker Vinícius. Para ver a primeira parte, clique aqui.

Um ano depois voltei ao Brasil e continuei pedalando a Donatta, mais empolgado do que nunca. Meu amigo não morava mais no meu prédio, então comecei a pedalar sozinho. Aos 18 anos ganhei uma speed usada, a Stela (magrinha como uma costela): uma Volare com grupo Campagnolo Mirage 16v e garfo de carbono. Uma nave! Meio pequena pra mim, mas foi o que deu pra comprar. Pedalava ~250km por semana, agora com roupinha colorida, capacete, luvas, sapatilha e etc, e voltei a pensar em competir. Foi nessa época que pedalei algumas poucas vezes com o recém formado grupo do MTB Floripa, mas sem uma mountainbike adequada era difícil acompanhar. Em 2005 tive a cara de pau de aproveitar o circuito de ciclismo do IronMan e pedalei os mesmos 180km que os atletas estavam percorrendo. Devidamente equipado e fantasiado de atleta, ganhava isotônico e frutas nos postos de controle, e assim completei o trajeto com certa tranquilidade em 8h. Em 2007 trabalhei voluntariamente no IronMan, pra compensar pela "folga" de 2005, foi legal e recomendo a experiência se você gosta desse tipo de evento =). 

Infelizmente, com bastante frequência, eu furava os treinos e nunca consegui manter a disciplina de um atleta.


Testdrive na Stela
Um dia me roubaram a Donatta, e fiquei só com a Stela. Isso me fez pedalar menos, pois não ia pra qualquer lugar com essa bicicleta e pra muitos trajetos ela era desconfortável. As limitações da bicicleta me fizeram sentir falta do que eu realmente gostava: me divertir. Foi quando enjoei de pedalar esportivamente. Ir rápido é legal, pedalar forte é viciante, mas ficar só pensando em velocidade e ter uma bicicleta que só serve pra tocar o terror no asfalto é muito chato. Gosto de pedalar forte mas sem ser "obrigado" a isso, podendo me dar o direito de pedalar suave também, em geral intercalando os dois ao longo dos passeios. Nunca tive muito apoio familiar pra isso também, acho que meu pai se decepcionou por eu não gostar de futebol e minha mãe nunca botou muita fé. E assim desisti de vez de ser atleta.

Em 2007 vendi a Stela e comprei a Talena: uma Scott Reflex 60. Minha vida agora era outra, pedalava diariamente pra todo lugar, me divertia numa trilha de vez em quando, descia morros alucinadamente, pedalava pela ilha inteira com uma bicicleta versátil e ótima em qualquer situação. Mas não queria mais saber de competições, apenas de aventuras, passeios, e do transporte do dia a dia.



Só numa Bicicletada pra pedalar assim
Um dia fuçando a internet achei uma tal de BICICLETADA, e acho que fui pela primeira vez em 2007. Tinha umas 6 pessoas, nem lembro direito quem eram, mas alguns comparecem até hoje. Fui uma vez, não fui por vários meses, fui de novo, não fui de novo, e sei lá quando comecei a ir assiduamente. Por um bom tempo éramos um grupo de umas 5 pessoas que toda última sexta feira do mês se juntavam pra pedalar e bater um papo sério sobre bicicletas e a cidade. Eu, Juliana, André, Ana, Fabiano. E aí sempre aparecia alguém aleatório também. Chegamos a fazer BICICLETADAS de 3 ou 4 pessoas algumas vezes, e teve até uma em que o Fabiano foi sozinho! Ficamos nessa por bastante tempo, até que em 2011 eu inventei de criar o grupo no Facebook e com o tempo a BICICLETADA foi ganhando sua devida proporção: 30-60 pessoas, com eventos pontuais de 150, 200, 300 pessoas. Uma atitude simples que gerou um resultado legal! Hoje a BICICLETADA tá aí, razoavelmente firme e forte.

Paralelamente em 2007 me meti na lista de email da ViaCiclo. Nem sabia direito quem eram as pessoas, mas depois que descobri que existe uma ONG de ciclistas comecei me meter nas discussões e a escrever emails revoltados sobre o marasmo da situação ciclistica da ilha. Fiz amigos e inimigos, falei tudo que queria, e foi assim que comecei a me envolver com o lado político da bicicleta.

Apesar de ser metido, não gosto quando me consideram "cicloativista". Pra mim a bicicleta simplesmente faz parte do meu dia a dia e de toda minha história de uma forma muito simples e sem ideologias. Esse meu envolvimento "ativista" com a bicicleta só acontece porque estou no Brasil, onde o povo e as autoridades ainda são analfabetos no assunto, onde usar a bicicleta diariamente ainda é visto como uma coisa excepcional, onde só se vê a bicicleta como esporte e lazer. Dessa forma, o que pra mim é uma simples descrição/opinião prática sobre o dia a dia de alguém que usa a bicicleta, pras pessoas parece ideologia, ativismo, revolta, especialidade, utopia. Não gosto de ser "diferente" por andar de bicicleta, porque acho que deveria ser uma coisa comum, assim como usar um tênis pra caminhar é comum. Assumo, claro, o gosto pelo esporte, o prazer de pedalar e um tanto de dedicação a isso. Mas não deveria ser diferente, por exemplo, de gostar de futebol e jogar uma pelada com os amigos. Ninguém chama o outro de "futebolativista" por isso. Como constatei na Alemanha, lá eu seria uma pessoa comum!


Hoje ainda me envolvo nas questões políticas da bicicleta, mas mudei meu foco: me tornei um Bike Anjo. A meu ver nada é mais eficiente pra mudar a visão de alguém sobre o uso da bicicleta do que fazer ela pedalar 10km dentro da cidade. O envolvimento em questões burocráticas é muito lento e chato, enquanto pedalar com alguém tem um efeito imediato. Chega a ser engraçado ver a cara das pessoas quando fazem isso pela primeira vez, aquele espanto misturado com orgulho, e o agradecimento delas é mais que suficiente pra eu gostar de proporcionar essa experiência. E fazendo isso também acabo me envolvendo politicamente, pois um certo prefeito recém eleito já prometeu que vai pedalar comigo pra ver como é a vida de um ciclista em Floripa.


Também mudei meu foco quanto ao meu gosto pelo esporte. Correr é legal, mas viajar é ANIMAL! Olhar um mapa, ver aquele traçado IMENSO e pensar que pedalei tudo aquilo é simplesmente demais! Passar o dia inteiro pedalando, por vários dias seguidos, te transporta não só fisicamente como também mentalmente. A cabeça vai longe enquanto as pernas te transportam. Fiz minha primeira viagenzinha em 2008 com um amigo, ida e volta de Joinville a São Francisco em pleno inverno. Foi pequena mas muito bacana, serviu de teste prático pra aprender a carregar aquela tranqueira toda na bicicleta e também pra aprender a enfrentar perrengues, como a imensa reta no litoral de São Francisco com areia fofa, vento contra e nenhuma sombra. Essa parte só foi divertida porque uma baleia nos acompanhou por boa parte do caminho.



Na estrada pra São Francisco


No início de 2012 fui atropelado: um senhor de certa idade pensou que conseguiria me passar e virar à direita, mas errou feio no cálculo e me acertou em cheio. Por MUITA sorte tive só uns ralados, mas vivi o momento mais Matrix da minha vida quando caí no chão: vi o carro passando por cima de mim e consegui rolar pra fora antes da roda traseira me atingir. Foi por tão pouco que limpei a calota da roda com o meu ombro. Sinceramente acho que morri numa dimensão mas dei "continue" em outra. A ironia é que o filho do casal que me atropelou havia morrido atropelado alguns anos atrás, então não pude deixar de aterrorizar eles com o fato de que quase me deram o mesmo destino.



Quando fui atropelado
Mas aí, de novo, o que não me matou me deixou mais forte e um pouco mais maluco. Embarquei com tudo nas cicloviagens e agora já até trabalho como guia de cicloturismo. Desde então já fiz as seguintes viagens:


Fazendo graça em Canela-RS
  • Floripa - Porto Alegre (575km rumo ao 1º Forum Mundial da Bicicleta)
  • São Leopoldo - Tubarão (450km pela serra, voltando do Forum)
  • São Paulo - Rio de Janeiro (750km rumo à RIO+20)
  • Floripa - Urubici (350km na serra em pleno inverno)
  • Floripa - Maquiné (540km com mais 30 pessoas rumo a um encontro de biologia)
  • Floripa - Porto Alegre (575km ao 2º Forum Mundial da Bicicleta, fechando o primeiro ano de viagens)

Guiando um grupo no Vale dos Vinhedos

Se eu for escrever sobre a experiência de viajar pedalando precisaria de um livro inteiro. Para este relato me contenho em dizer que é DEMAIS! Planejo logo logo ir pedalando até o Chile, um sonho-quase-fetiche meu, talvez sozinho talvez acompanhado. Hoje tenho uma companheira afetiva que também é adepta da bicicleta e isso é a melhor coisa do mundo! Espero que possa contar com ela pros meus planos futuros. Não faço idéia do que vou fazer com a bicicleta nem pra onde vou nos próximos anos da minha vida, só sei que vou pedalando!

E espero não morrer atropelado. Caso ocorra, fica aqui meu testamento: quero que usem a minha bicicleta como ghost bike e EXPLODAM ESSA CIDADE!


Mas na melhor das hipóteses, espero só continuar pedalando =)



Chegando em Porto Alegre, o que é uma chuvinha depois de 550km?


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