Cicles Hoffmann

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Programa de Índio da tribo Tupiniciclista! :)

Divertida Crônica por Moacir Carqueja

Bebíamos seletos vinhos na apresentação do novo apartamento do casal Felipe e Manu, quando meu vizinho ciclista e ciclo ativista, Ari Boehme me convidou.
- “Amanhã tem subida na Pedra Branca, vamos?

Quase três meses sem pedal, oito quilos mais feliz depois de um mês nazoropa, eu senti vontade e medo. Nunca tinha feito a caminhada que povoa meus sonhos desde menino. Sabia que seria dura, que eu ficaria para trás, além da graxa importada se sobrepunha o peso dos 67 anos. Um atrevimento indevido para um velhote. Mas jovem não mede consequências, jovem é dose. Então me arvorei a ser jovial e topei a parada.

Nunca havia pedalado com a turma do Hoffmann, cheguei um pouco sem graça, parei a viatura, tirei a bicicleta e fiquei por lá, quieto, só observando a bugrada. Eram poucos inicialmente, uns dez, e o meu pajé, digo, guru, ainda não havia chegado. Estava fresco e eu previa uma temperatura baixa na volta, que imaginei noturna. Nesses dias próximos ao solstício a noite cai cedo e com o céu limpo o frio se instala de vereda, como se diz em manezês. Levei luzes para a noite e um agasalho leve.

Perto de vinte tupiniclistas (bugres da tribo da grande nação tupiniquim composta de ciclistas de montanhas e trilhas) partiram para o programa de índio. De fato, sabíamos todos que seria programa bem ao gosto da bugrada, só que nem Ari, que levou a esposa Aline, nem eu tínhamos ideia do tamanho da encrenca. Era programa para indio Jones, só faltavam as múmias falantes.

O pelotão se alongou pela ciclovia da Beira-Mar de São José, passou pelo centro histórico, atravessou vários tipos de paisagens até chegar ao sopé da montanha. Olhando de longe, nem merecia o nome, não passa de um morro pouco mais alto que o Pão de Açúcar. Ali pegamos um sendeiro agradável para pedalar e seguimos por uma centena de metros até que começou o calvário.

A trilha está em péssima forma, muito erodida com sangas profundas. Ciclistas hábeis e em muito boa forma conseguem pedalar, contudo a maior parte saltou das bicicletas e empurrou morro acima.





Como diz a Lady Murphy, nada é tão ruim que não possa piorar. Nem demorou muito para que nos deparássemos com obstáculos mais sinistros: Rochas expostas em sequência, como se fosse uma escadaria construída por algum pedreiro gigante, com degraus irregulares, alguns com quase um metro de altura. Já não era mais possível empurrar a bike, era necessário colocar no ombro e escalar o Gólgota. Éramos um bando de bugres cristãos, pagando promessa, só que nossas cruzes tinham duas rodas que de nada serviam.

Algumas passagens eram tão difíceis que alguns se prontificavam a ajudar a transportar a bicicleta dos outros, mutirão. Foi assim que descobri que a bike de Aline era bem mais pesada que a minha. Então, solícito, propus que trocássemos. Ela protestou, fez beicinho, mas não arredei pé. Várias vezes, quando parávamos para recompor a hidratação ou respirar um pouco, ela me pedia para trocarmos, eu estava seguro de ser coisa de mulher. Como é de domínio público, elas sabem fingir. No fundo, bem escondido nos pensamentos, Aline tinha o desejo de que eu não destrocasse.

Acho que nossa chegada ao topo se deu uma hora depois dos primeiros. Ainda estávamos na metade da subida e os guerreiros já faziam a dança da vitória lá em cima. Mais ou menos por aí nos encontramos com quatro hikers com mochilas nas costas que acampariam no topo. Quatro machos acampando numa noite fria? É pior que nosso programa de índio.

Ari fez um comentário alentador:
- “Segundo o altímetro, faltam só cem metros de ascensão.

Cheios de ânimo, encaramos aquele final que me pareceu, e ainda parece, muito mais do que o dobro de sua leitura no instrumento. Encontramos outros caminhantes que disseram umas dez vezes que estava acabando. Acabamento do tipo minha casa, minha vida, de má qualidade e em duzentas prestações.

Subíamos maldizendo nossas vidas miseráveis quando ouvi gritinhos. Não seriam de nossos guerreiros, pareciam vindos de gargantas de meninas adolescentes. Não demorou para que as encontrássemos. Trocamos olhares cruzados, que diabos fazem essas gurias tão alegres e bobas num ermos desses? E elas estavam pensando: qual o motivo de carregarmos bicicletas naquela trilha impossível de pedalar? Elas tinham razão, até para caminhar era preciso habilidade e pernas fortes, imagine-se pedalar.



Quando cheguei ao topo estavam posando para a foto em grupo e fiquei de fora. Mas eu tenho que contar a mentira com documento comprobatório. Fiz minha selfie, enviei e registrei a posição pelo zap-zap.




Havia outras pessoas lá em cima, inclusive um cachorro gordo e guloso. Ari abriu uma barra de cereal e o peludo se sentou abanando a cola atrás dele. O alemão não o viu e pisou no bicho sem querer. O cão ganiu de dor, fez um escândalo do tipo bicha-louca tomando vacina, e a multidão que lotava o cume fez gritaria como se fosse um gol na Ressacada.
- “Ari, não morde o cachorro!

Havíamos escalado até à cota 460, uma centena de metros mais alta que o Pão de Açúcar. Sabendo que desceríamos com o mesmo tipo de dificuldade, eu me perguntei: por que diabos trouxemos bicicletas? Se você, caro leitor, pensa em ir até lá, vá a pé.

Iniciamos a descida. Agora eu não poderia trocar a bike com Aline, por causa da altura do selim. Precisaria de ferramenta para regular. Aliás, deveria ter baixado para mim. O primeiro trecho ciclável não tinha mais do que trinta metros. Depois, usar os ombros.

Aproveitávamos todos os percursos adequados a pedalar, os mais hábeis faziam loucuras tipo Cirque du Soleil. Ao final de um desses trechos, diante de uma rocha que descia abrupta, saltei da bike para o lado errado, meu pé não encontrou apoio, voava alto sobre o fundo da valeta. Caí parado. Depois a bicicleta passou sobre mim e aterrissou no sentido contrário ao do caminho, tudo em slow motion (é chique colocar palavras em inglês). Um monte de solícitos se apresentou, mas não precisei da ajuda, eu estava inteiro, apenas com a crista quebrada (gíria arcaica e em desuso que significa orgulho ferido).

Monta, desmonta, passa por árvore caída, caminha pela sanga... Até que, cansado além da conta, pisei no meu próprio pé no fundo da valeta. Foi inevitável, tombei para a direita, novamente devagar, mas com alguma consequência, bela ralada no joelho. Por sorte, pouco depois o terreno melhorou e pude descer ciclando quase todo o restante da descida, era difícil, mas agradável, cheio de adrenalina, saltando raízes, desviando valetas e me equilibrado nas bordas altas, cruzando lamaçais.

O grupo se reuniu mais uma vez em Colônia de Santana e um pelotão desceu a estrada em velocidade acima de minha capacidade aeróbica. Não os vi mais.

Ainda tive um pneu furado que me atrasou um pouco, sendo o último a chegar. Lá restavam apenas Ari e Aline, preocupados comigo. Amigo é para essas coisas, leva na roubada, depois fica roendo as unhas, cheio de remorsos. Não te preocupes, Ari, a vingança vem de bicicleta, antigamente era a cavalo.

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