Cicles Hoffmann

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quinta-feira, 25 de maio de 2017

''São 07:30 de uma segunda-feira, estou saindo de carro para aquela rotina desgastante de trânsito vagaroso e lotado, que ódio! Eis que na minha saída da garagem passa uma bicicleta e pede passagem como se fosse um veículo (CTB – Código de Trânsito Brasileiro, considera BICICLETA – veículo de propulsão humana, dotado de duas rodas). Odeio bicicletas!

Deixo o “ser” de roupas coloridas passar com seu sorriso irritante e sigo meu caminho. Odeio ciclistas! 


Paro no sinal e lá está ele, ao meu lado parado no sinal se comportando como se devesse seguir alguma lei de trânsito. Hahahaha, ridículo! Odeio falsos moralistas! O sinal abre e ele quer disputar espaço comigo, deixo apenas um fio de cabelo de distância entre nós (CTB – Art. 201); vai disputar espaço na calçada, pelo menos isso sei que é ilegal (CTB – Art. 59).

O trouxa me olha ainda sorrindo, faz sinal de negativo e pede que eu afaste um pouco.


Odeio gente que sorri o tempo todo! Para a minha sorte, no próximo sinal paramos e ele seguiu seu caminho; ainda é burro, desceu da bicicleta para atravessar a faixa de pedestre (CTB – Art. 68), bem mais rápido passar pedalando. Odeio burros!

Sinal abre e sigo em frente, 30 minutos para percorrer 5 km, uma verdadeira tortura. Odeio engarrafamentos! 32 minutos depois, eis que meu dia me reserva mais irritação: novamente surge o “ser” sorridente com roupas coloridas, será que vou ter que meter a mão na buzina e colocar ele no lugar dele dessa vez? (CTB – Art. 170)

Noto que traz consigo uma sacola reciclável de um supermercado que fica a 6 km de distância do nosso último encontro… Como pode essa “praga” andar 12 Km e ainda assim me encontrar a apenas 5 km de onde nos separamos, com sacola “ecologicamente correta” e ainda com aquele sorriso irritante? Odeio alternativos e bichos-grilos simpatizantes do Green Peace!


Seguimos juntos, mas graças ao meu bom Deus agora ele tem uma rota para ele, ciclovia, ciclofaixa, sei lá como chama, pra mim é a mesma coisa desde que me separe dele, e por estar separado ele consegue ir mais longe, fico aliviado de perder de vista “aquilo”.

Mais a frente avisto o dito cujo tomando água de coco e sentado ao lado de uma árvore, não falei que era bicho grilo? Depois querem me taxar de preconceituoso… pelo menos sigo na frente e o deixo pra trás, tchau!!! 4 sinais adiante, “ELE”, o homem da calça de fita isolante com capacete verde fluorescente, me passa de novo… será possível que esse desempregado que não paga imposto vai fazer parte do meu dia até o trabalho?

Nem com pausas dele eu consigo ganhar essa corrida? Mas calma que rola “A Lei é do mais Forte”, na próxima que parear comigo não terei pena, sou maior que ele, tem que me respeitar (CTB – Art. 29).


Abriu o sinal, o dito cujo está bem a frente, ainda fingindo ser um carro, esperando o sinal abrir, vou passar a mais de 80 km/h bem perto só pra ele sentir quem é o mais rápido (CTB – Art. 220), esse grilo pedalante vai aprender que não pode disputar comigo. Passei!!!! Ele para ao lado novamente, odeio sinais!!! Dessa vez olha para a porta do meu carro, avisa que está aberta, sinto que quer se entrosar… sem chances, nem agradeço.

Ele olha para a porta de trás onde tem a logomarca da empresa onde trabalho e dá um sorrisinho, deve estar se vangloriando de ser desocupado, ter tempo para ficar passeando por aí de “bicicletinha” e zombando porque tenho que trabalhar. Odeio desocupados!

Ele some novamente, dobrou, me senti um pouco ofendido em saber que o fato de ser trabalhador foi arma para o sorriso dele, decido me dar uns 10 minutos de folga, paro meu carro em um acostamento colorido de vermelho e “olhos de gato”, aquele treco que brilha quando bate luz — parabéns prefeitura que faz acostamentos tão bem sinalizados, cuidando de nós motoristas e não desses “caras de bike” (CTB – Art. 21).

Finalmente chego ao trabalho, me informam que tenho uma reunião de última hora, fomos vendidos a uma multinacional e é dia de ser apresentado ao novo “bam bam bam”.
Me arrumo, entro na sala e me deparo com um senhor de aparentemente 56 anos, magro, porte meio atlético, sorriso no rosto, semblante amigável. Fico feliz já com essa recepção.

Conversamos muito, ele me fala das 32 empresas que administra, dos mais de 1200 empregados diretos e indiretos, das ações sociais; me sinto muito bem, parece que tudo vai melhorar e esquecerei a experiência com o grilo pedalante provocativo.
Foi muito prazeroso, ganhei o dia, nos despedimos com um caloroso aperto de mão e até um abraço, coisa que nunca tive sequer de um gerente, mas do dono… TIVE, que felicidade!


Ao sair me deparo com o capacete VERDE fluorescente em cima de uma bicicleta e reluto em acreditar que o grilo está por ali. Eis que pergunto ao rapaz da garagem de quem é aquela bicicleta e ele sorri e diz: “Do nosso novo patrão, ele chegou uns 20 minutos antes de você”.

ODEIO odiar aquilo que desconhecia! Um filme se passa na minha cabeça, alguns conceitos mudam, me sinto mal e confuso. Não, decididamente não vou comprar uma bicicleta, nem adianta! Mas… volto para casa diferente hoje, volto incomodado, algo mudou, algo… transformou-se dentro de mim, algo… NOVO, ODEIO NOVIDADES!!!!''

- Autor desconhecido.

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