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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fonte: Revista Bicicleta
Autor: André Geraldo Soares

De modo geral, a sociedade ainda não trata a bicicleta como um elemento do trânsito. Entretanto, não apenas a legislação e a ética desaprovam esta mentalidade: o próprio comportamento dos ciclistas comprova que eles são legítimos filhos do trânsito brasileiro.

Observando as ruas, vemos ciclistas se comportando inadequadamente: trafegando na contramão, avançando sobre pedestres, conduzindo com imprudência e se descuidando de acessórios de segurança. Não é incomum vê-los transportando crianças de forma imprópria, com carga excessiva, falando ao celular ou estacionando seus veículos em qualquer lugar.

Com efeito, agindo assim, os pedaleiros não apenas aumentam os riscos para si próprios, mas cometem infrações tipificadas no Código de Trânsito Brasileiro e também, talvez o mais ruim, são usados, de forma reducionista, como justificativa para explicar tudo que sucede a todos os ciclistas em vias públicas.

Agora é preciso perguntar: em quê o comportamento dos ciclistas difere do comportamento dos condutores dos demais tipos de veículo? Qual formação ou instruções obtiveram os ciclistas antes ou após começarem a pedalar? Partamos da admissão de que não são todos os motoristas que barbarizam no trânsito – então, o mesmo deve ser reconhecido a respeito dos ciclistas.

Os ciclistas brasileiros aprenderam a andar de bicicleta no trânsito das cidades brasileiras, portanto absorveram o comportamento do condutor brasileiro, que se caracteriza mais pela disputa por espaço (e tempo) do que pela ocupação compartilhada da via pública, mais pela imposição da força e do status dos seus cilindros do que pelo respeito e cuidado com os elementos mais vulneráveis do trânsito. Todos os usuários das vias públicas foram educados na política ainda prevalecente de oferecer infraestrutura para favorecer os veículos motorizados. O trânsito brasileiro ensina que o cidadão de carro tem mais valor do que aquele que anda a pé, de bicicleta e de ônibus.

É preciso que os ciclistas tomem mais cuidado nas ruas, obedeçam a sinalização, trafeguem no sentido do tráfego etc. – para o próprio bem deles e para contribuir com a moralização do trânsito. Mas mesmo que a totalidade dos ciclistas amanhã de manhã passe a respeitar todas as regras, isso não vai resolver o problema nem deles nem da mobilidade urbana, pois o sistema viário é desenhado para os motorizados: largura das ruas, entrada de garagens, vagas de estacionamento, sinalização, semáforos etc.; e as curtas vias ciclísticas, nas raras cidades onde elas existem, são de má qualidade e desconectadas. Portanto, em algum momento, se não quiser trafegar na contramão nem furar um sinal vermelho, o ciclista só pode contar com o teletransporte. Bicicletários? – onde? Fiscalização de trânsito? – por quem? Punição para os motoristas criminosos? – desde quando?

Os ciclistas brasileiros não mudarão seu comportamento com as fininhas e buzinadas para “ensiná-los”, também não mudarão com as péssimas, efêmeras e ocasionais, apesar de dispendiosas, campanhas de TV. Os ciclistas brasileiros mudarão seu estilo quando o trânsito brasileiro mudar, quando a mentalidade do gestor público mudar, quando houver efetiva penalização de todos os infratores, quando a educação viária tornar-se programa continuado visando o respeito aos mais frágeis.

As principais organizações e iniciativas individuais pró-ciclismo estão atentas a esta questão e possuem orientações voltadas ao comportamento seguro, legal e ético do ciclista no trânsito, como pode ser visto em seus sítios eletrônicos – mas elas não têm força para atingir toda a massa de ciclistas. Além disso, não cabe a tal segmento tapar os buracos do Estado – educar os ciclistas, fiscalizar as transgressões etc. –, e sim exigir, instrumentando-se de necessário conhecimento, que o Estado cumpra sua função.

A crítica da transgressão dos ciclistas não pode esquecer que estamos tratando também com crianças e com adultos pouco instruídos e que é preciso nomear aqueles que criaram a tragédia do trânsito brasileiro. A autocrítica dos ciclistas não pode ser feita sem a exigência das demais autocríticas: dos motoristas, que pressionam por mais e mais viadutos; dos gestores públicos, que governam para favorecer os negócios das empreiteiras e concessionárias; da mídia, que implanta o imaginário da superioridade dos motorizados.

O que é chamado de “mau comportamento” do ciclista não deixa de ser uma consequência do jeito brasileiro de tratar o trânsito e o sistema viário, o que está intimamente ligado à sua cultura. A sua crítica pode e deve ser feita, mas por aqueles que agem – naquilo que está ao alcance de cada um – para a humanização e sustentabilidade da mobilidade urbana. Ou seja, se a crítica não abordar o modelo de sociedade e não contribuir para a sua transformação, não temos mais do que meras reclamações e acusações.

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