Biketech Floripa

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O texto abaixo é, para mim, uma ótima opinião sobre este assunto que acredito que "Pedalar é Saudável!".

A partir do momento que o ciclista usa qualquer substância proibida, passa a ser prejudicial para a saúde, independente do motivo que ele alegar.

Não tenho pretensão de ser ciclista profissional, conheço meus limites e sei que não treino o suficiente para ganhar dos melhores da minha categoria. Por isso comemoro quando faço uma boa prova, independente do resultado (se ganhar um troféu, é claro que fico mais feliz :).

Parabéns a todos que já são e/ou estão prestes a ser referências do verdadeiro ciclismo, aquele que é saudável e que deveria ser o único a existir!



Henrique Avancini: “Sempre haverá a opção pelo ciclismo limpo”


Fonte: Bike Magazine


Já faz algum tempo que penso em escrever um artigo sobre doping no ciclismo.
Não há nada que me incomode tanto como o modo que o doping é visto no meio ciclístico.
Essa coisa de inserir o doping no contexto do ciclismo em geral simplesmente ferve minha cabeça.
No momento vivemos mais um “boom” da questão do doping impulsionado pelo caso Lance Armstrong que gerou uma onda de protestos mundiais, como em 1998 no caso Festina e em 2006 na Operacion Puerto, entre outros, mas desta vez o barulho foi maior.
A minha antipatia por dopados começou quando eu ainda era pequeno. Até hoje,o único ídolo no ciclismo que eu tive foi o italiano Marco Pantani. Na época do Pantani, eu não tinha acesso à internet e as informações das corridas chegavam sempre muito atrasadas. De qualquer maneira eu assistia repetidas vezes as fitas de vídeo das provas de montanha em que Pantani atacava como um louco, com sua peculiar posição em cima da bike, pedalando em pé, segurando embaixo no guidão e com um giro diferente, com os calcanhares sempre altos. “Il pirata”, como era conhecido, mexia comigo e eu não queria nem saber…Meus treinos todos os dias, eram em subidas. Eu queria seguir minha inspiração.
Quando vi em uma revista que o Pantani tinha sido suspenso por doping fiquei triste, muito triste. E quando pouco tempo depois ele morreu devido a um profundo envolvimento com doping, a minha capacidade de admirar um outro ciclista morreu junto…
Só depois de muito tempo é que percebi que o fato da morte do Pantani gerou esse bloqueio em mim. E aí percebi o que as referências do esporte são capazes de fazer com a vida das pessoas.
Não é apenas uma questão de vencer, mas também de influenciar as pessoas. A parte ruim é que essa influência pode ser positiva ou negativa.
Eu ainda era uma criança, um pequeno “viciado” por ciclismo, e o caso do Pantani poderia ter criado um conceito em minha mente de que doping e ciclismo andam de mãos dadas… Graças a Deus, por algum motivo, isso não aconteceu.
Mas o normal é que os casos de doping criem essa ideia distorcida e que “branco e preto se misturem tornando-se cinza”, distorcendo  e confundindo o conceito de certo e errado.
A verdade é que toda minha inspiração no ciclismo foi interna. Eu nunca me espelhei em ninguém para buscar uma melhora ou tive um ídolo que fosse minha referência.
Infelizmente a sensação boa que o esporte gera, que é a de ter um modelo admirado, não existe na minha cabeça e muito menos no coração.
Perder essa capacidade de ser influenciado por alguém foi ruim para mim, mas hoje vejo como um acontecimento positivo. Hoje eu quero ser uma boa influência e vejo a importância dessa mentalidade. Acredito que como eu fiquei, muitas pessoas também ficam muito chocadas quando alguém que era  seu  ídolo é desmascarado.  A decepção é grande.
O que aconteceu comigo abriu meus olhos para entender que quando você se torna referência para alguém – não importa o quanto você é referência – os seus princípios podem ser levados adiante mesmo que involuntariamente. Então a sua vida pode influenciar o modo de alguém pensar, sendo de forma negativa ou positiva.
Hoje, quando converso com um ciclista alguns pensamentos me incomodam, mas principalmente quando converso com jovens ciclistas fico muito preocupado, porque percebo que essa cultura de doping no ciclismo tende a permanecer em nosso meio já que os jovens, que serão os próximos ídolos e referências, já estão se formando com estas raízes.
O pior de tudo nessa história de ser um ciclista com o conceito ciclismo/doping não é que alguns atletas provavelmente usarão alguma coisa estúpida e proibida um dia, mas sim que esse ciclista já é formado com uma imensa dificuldade de auto-superação. Ele vê a melhora e o ganho de desempenho em uma pílula ou seringa. O que o bloqueia para ter uma conduta mais profissional em sua preparação e principalmente impede que ele tenha real admiração e respeito por outros atletas, inclusive seus concorrentes.
A primeira coisa que não consigo entender é porque o esporte é tão tolerante com os trapaceiros…
Não estou falando das penalidades, mas sim de os atletas, equipes e patrocinadores aceitarem o doping em seu meio como uma coisa quase natural.
Essa história de que todo mundo erra e merece uma segunda chance é justa, mas o problema é que vejo essa “segunda chance” ser dada de forma muito natural. Por que isso? Por que no meio ciclístico é normal abrir os braços para alguém que mal saiu de uma suspensão por doping? Ou para alguém que sabidamente faz uso de substâncias proibidas?
Não vejo essa tolerância em nenhum outro tipo de trabalho, por isso não compreendo a razão de adotarmos essa conduta no ciclismo.
Existem várias circunstâncias diferentes, mas sempre haverá a opção pelo ciclismo limpo.
O maior problema dessa “tolerância” é que os princípios do esporte nunca são renovados e quando um atleta juvenil/junior vê um atleta elite andando forte, imediatamente ele crê que o atleta é dopado. Alguns atletas jovens crescem pensando que isso é normal, que o doping faz parte do ciclismo.
E mesmo quando um atleta está “limpo” e anda forte há sempre a dúvida desses incrédulos. A partir daí os valores da vitória são sempre diminuídos porque o atleta que vence ganha também a dúvida dos outros.
Muitas vezes essa dúvida vem até de concorrentes, que às vezes se dopam, mas mesmo assim não vencem atletas limpos e não conseguem crer que seja possível andar em alta performance sem drogas. Ou então atletas limpos perdem e acham que porque se dedicam “ao máximo” e mesmo assim não vencem, os atletas a sua frente usam substâncias proibidas.
Acredito que seria melhor se deixássemos os exames antidoping fazerem o julgamento.
São muitas coisas que envolvem o resultado em uma competição, desde o trabalho de preparação até a predisposição genética. Eu acredito que hoje é possível andar no mais alto nível mundial sem o uso de substâncias proibidas.
Mas pela cultura presente alguns atletas acabam deixando de buscar meios de desenvolvimento da performance que não seja o doping. É muito mais difícil, por exemplo,estudar e aprender sobre alimentação e treinamento, do que ir até a farmácia e comprar qualquer porcaria que você ouviu alguém dizer que era bom.
O que já percebi é que atletas que já usaram alguma coisa acabam criando uma certa dependência psicológica. Eles deixam de acreditar em si e passam a crer que sua performance só será digna com o uso de substâncias proibidas.
Henrique Avancini
Acredito que cada um possa pensar e agir individualmente para mudar esse conceito e a partir da sua iniciativa ir passando o princípio adiante.
O trabalho limpo chega ao mesmo lugar que o doping, apesar de, teoricamente, ser mais difícil. Mas acredito que a satisfação interna seja bem maior.
Criar a mentalidade de que alguém ganha de você porque supostamente é dopado é uma desvantagem que você cria para si mesmo, além de muitas vezes ser uma injustiça com o seu adversário.
Mas a maior vantagem que você cria pra si mesmo é ser capaz de vencer um dopado, correndo limpo.
Não sei aonde vou chegar como atleta, mas quero chegar pedalando limpo e gostaria que as pessoas tivessem esse mesmo desejo. Quero isso pela minha saúde, pela minha satisfação pessoal, pela minha fé, mas principalmente para nunca decepcionar alguém que um dia acreditou e se espelhou em mim.
Eu não quero entrar no mérito dos riscos à saúde, deslealdade e outras coisas. Apenas gostaria que as pessoas compreendessem que o importante é não olhar só para si mesmo e pensar nos seus resultados, mas pensar no quanto você pode significar para, o que você diz ser, o SEU esporte.
Henrique Avancini é Mountain Biker
http://avancinimtb.com.br/

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